Doença da positividade
⚙️ Doença da positividade
Como a substituição da disciplina pelo “poder” produz burnout, depressão e uma nova forma de controle
Byung-Chul Han propõe um diagnóstico forte e provocador: a sociedade disciplinar descrita por Foucault (hospitais, asilos, presídios, fábricas) deu lugar à sociedade do desempenho (Leistungsgesellschaft). Seus espaços não são mais muros e clausuras, mas academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. O sujeito disciplinar obediente foi substituído pelo “empreendedor de si mesmo” — um sujeito flexível, otimizador, movido pelo verbo modal positivo do “poder”. O mantra coletivo da afirmação, “Yes, we can”, expressa o caráter de positividade dessa nova configuração social.
Onde a sociedade disciplinar era negativa (proibição, coerção, dever), a sociedade do desempenho é positiva (estímulo, realização, autoexploração). O problema, para Han, é que essa positividade excessiva adoece: burnout, depressão, TDAH, síndrome de fadiga crônica são as patologias típicas de quem não suporta a tirania do “pode tudo”. A pergunta que ecoa é: como resistir à violência invisível da positividade? A resposta de Han — recuperar a negatividade, o ócio, a contemplação, a capacidade de não-fazer — é, entretanto, profundamente contestada por outros pensadores.
Han afirma que a analítica do poder foucaultiana não consegue descrever as modificações psíquicas e topológicas que nos levaram à sociedade do desempenho. A disciplina, para ele, tornou-se arcaica. A objeção — tanto de leitores ortodoxos quanto de críticos como Deleuze — é que a disciplina não desapareceu: ela se deslocou, se metamorfoseou e se tornou mais capilar.
Mais ainda, o neoliberalismo — essa máquina de produzir subjetividade empreendedora — não é avesso à disciplina: ele a internaliza. O trabalhador flexível vigia a si mesmo, se submete a metas, rankings, avaliações 360 graus. A disciplina tornou-se auto-disciplina, o que pode ser ainda mais eficaz. Portanto, a mudança não é uma ruptura radical entre “negativo” e “positivo”, mas uma transformação na economia do poder.
Deleuze, já em 1990 (Post-scriptum sobre as sociedades de controle), antecipava uma crítica a qualquer leitura que tomasse a disciplina como superada. Para ele, o que emerge é a sociedade de controle — fluida, contínua, modulada. Academias, prédios de escritórios, bancos e aeroportos não são espaços de “desempenho livre”, mas de rastreamento permanente, de formação contínua, de avaliação em tempo real.
🔸 Han: O “poder” e o “Yes, we can” expressam a positividade emancipada da disciplina.
🔹 Deleuze: Esse “poder” é, na verdade, o controle por meio da modulação. Os bancos de dados, os algoritmos, as métricas de desempenho individualizado são mais opressivos que os muros da fábrica. A positividade do desempenho é o verniz ideológico do controle digital.
A objeção de Deleuze é central: o entusiasmo de Han pela “nova positividade” corre o risco de confundir aparência e essência. O discurso do empoderamento e da realização pessoal é o modo contemporâneo de governar pela liberdade. Negar a persistência da disciplina e do controle é tornar invisível o próprio mecanismo de dominação.
Entre os críticos de Han, Žižek é o mais mordaz. Ele não apenas rejeita a dicotomia entre sociedade disciplinar e sociedade do desempenho, mas também aponta que a “positividade” descrita por Han é uma fantasia ideológica. O sujeito que “pode tudo” está, na verdade, paralisado pela indiferença sistêmica: nada do que ele faz realmente importa, e a depressão emerge dessa impossibilidade de agir politicamente.
Para Žižek, a verdadeira negatividade não é o “não” contemplativo sugerido por Han, mas o antagonismo de classe, a luta por uma sociedade alternativa, a construção de um “nós” que se opõe ao sistema. A depressão é um sintoma da falta de saída, mas a saída não é individual — é política e coletiva.
| Pensador | Diagnóstico | Problema central | Saída proposta |
|---|---|---|---|
| Byung-Chul Han | Sociedade do desempenho (+), pós-disciplinar | Excesso de positividade → burnout, depressão, TDAH | Negatividade: ócio, tédio profundo, capacidade de não-fazer |
| Deleuze (controle) | Sociedade de controle modulada; disciplina não acabou | Controle contínuo, rastreamento, métricas de performance | Linhas de fuga, resistência nômade, criação de novos modos de subjetivação |
| Foucault (governamentalidade) | Neoliberalismo produz sujeito empreendedor (governo pela liberdade) | A “positividade” é uma técnica de poder mais eficaz | Genealogia das práticas de si; mostrar como a resistência é capturada |
| Žižek (antagonismo) | Fantasia do capitalismo tardio — a positividade oculta a indiferença | Depressão = impossibilidade de agir politicamente | Ação política coletiva, luta de classes, construção de um “nós” antagonista |
Han defende a recuperação da negatividade como antídoto à tirania da positividade: aprender a dizer “não”, cultivar o tédio profundo, deixar-se ficar sem fazer nada. A crítica — especialmente de esquerda — vê nessa proposta um individualismo contemplativo que não enfrenta as causas estruturais da epidemia de burnout e depressão.
Žižek ironiza: “Mindfulness e ioga para acadêmicos cansados — eis a revolução proposta por Han”. Já Foucault lembraria que mesmo o “não-fazer” pode ser absorvido pelo mercado (apps de meditação, retiros de silêncio pagos, cursos de ‘desempenho no ócio’). Sem uma transformação coletiva, o ócio não passa de outra mercadoria de bem-estar.
A verdadeira questão, para os críticos de Han, não é como cada indivíduo pode se retirar da sociedade do desempenho, mas como transformar coletivamente as estruturas que produzem esse imperativo de desempenho. A redução da jornada de trabalho, a renda básica, o controle democrático dos locais de trabalho, a desmercantilização do cuidado — estas são políticas que atacam a raiz da autoexploração, sem recorrer a uma “negatividade” psicológica individual.
Ainda assim, o diagnóstico de Han tem méritos inegáveis. Ele capta a passagem do panóptico ao sinóptico, da vigilância vertical à autovigilância horizontal. O trabalhador contemporâneo não precisa de um capataz; ele mesmo é seu próprio capataz, seu próprio coach, seu próprio avaliador. A “positividade” é real como experiência subjetiva — e é essa experiência que Han descreve com sensibilidade.
Byung-Chul Han nos presenteia com um diagnóstico agudo da subjetividade contemporânea: o cansaço, a falta de limites, a sensação de estar sempre em déficit consigo mesmo. Mas sua saída — a recuperação da negatividade através do ócio e da contemplação — é considerada por Deleuze, Foucault e Žižek como uma solução individual para um problema coletivo.
A sociedade do desempenho não será superada por sujeitos que aprendem a “não-fazer”, mas por movimentos coletivos que imponham limites ao trabalho, que deslegitimem a avaliação permanente, que construam instituições onde o cuidado e o descanso sejam direitos, não estratégias de performance. A positividade não será vencida por uma negatividade interior, mas por uma política da lentidão, da redistribuição e da democracia radical.
No centro do debate está a pergunta que Han não enfrenta de frente: quem define o que é ‘desempenho’? Quem se beneficia com nossa autoexploração? Quem perde quando paramos de performar? Enquanto essas perguntas não forem respondidas politicamente, a “sociedade do desempenho” continuará a produzir corpos exaustos, mentes depressivas e discursos de autoajuda que celebram a própria prisão como liberdade.
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